Todo poeta espera a dor para escrever, me frustrei…

Achei que nossa despedida renderia rios de lágrimas, aquela dor fina que dilacera a alma, aquele sofrimento intenso que mergulha o sofredor no fundo do abismo do abismo do abismo. Era para me vir tantas palavras mas me resta apenas o monossilabismo… Queria estar sofrendo submersa no desespero profundo, queria gritar: “Adeus mundo!” mas … não sinto… não sinto nada… nem de perder te, causa me mágoa…teu amor não serviu nem para me inspirar uns versos trágicos, não serviu de nada…

Já que não há sofrimento para escrever, descrevendo o fim de nossa história, vou ser feliz por ai, é o que me resta…

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Festejo da animalidade

O masculino solta o berro da animalidade;
Brindam os instintos:
“Que nos livre das responsabilidades!”
Como integrantes de uma matilha desenfreada,
rudimentaridade humana, bebem em suas taças;
Proclamam-se seres desprovidos de razão,
no baile daqueles, que da espécie,
não acompanharam a evolução.

Liberdade ainda que tardia

A porta da gaiola estava aberta,
mas eu não conseguia sair,
Achava errado ir!
Mesmo tendo asas prontas para voar,
Não sabia como agitá-las,
tão congelante este medo da altura,
Pudera! Disseram me a vida toda:
– Voar é loucura!
E eu repetia sobre quem voava:
-Loucas!
Acreditei… fui convencida de que
ser prisioneira é melhor que ser louca…
Daqui, da porta da gaiola, observo,
enquanto muitas loucas voam lá fora, beijam o ar,
em plena liberdade…
Foda se a sanidade! Eu vou me jogar!

Quero o magnetismo misterioso
que arde o corpo, explode o gozo;
Rasgar a matéria humana,
nua, ofegante, deitada em sua cama,
Romper os ritos, acender a chama profana,
sob seu corpo que entra ansioso no meu,
Ali quero estar…
Ir e vir sem reencontrar morno,
o desejo quotidiano,
impregnado de ser humano.

Apesar dos seus esforços,
vivo minha sexualidade de forma plena, sem remorsos.
Sei que vos incomoda, sei que em sua moralista fantasia,
sou infeliz, sou vazia, sou tudo, menos o que eu quero ser.
Vivo assim, sem medo das maledicências,
enquanto tu me vigias, tenho orgasmos sobre o que chamas de
Indecência.

A arte de desapaixonar se através de redução de danos

Nada como um corpo gostoso e um sexo ardente para curar a lembrança apaixonada e insistente de outro corpo gostoso e ardente.

Para Emicida sem amor (sobre a polêmica a respeito da música Trepadeira)

Ouvi teu poema com som de canção
Mas esta melodia não alivia meu coração
Não adianta dizer que disse outrora
Se o que me maltrata é o que cantas agora.

Eu, assim como todas as mulheres, como você diz
Merecemos respeito, merecemos uma vida feliz
Por que cantastes então censurando nossa liberdade
Vestindo de macho recalcado seu personagem?

Por que cantas que merecemos apanhar ? Me diz?
Por que cantas que merecemos ser envenenadas?
Por que cantas que a mulher livre merece ser depreciada?
Por que cantas se não acredita nesta moral infeliz?

Não me venha com poeminha cheio de demagogia,
Discurso bonito? Qualquer um pode fazer sobre a laje fria.
O homem que nos romanceia, é o mesmo que nos mata,
Queremos respeito, não suas rimas dissimuladas.

Disseste que tens o direito de cantar sobre o quiser…
Cantas! Grite ao mundo todo teu direito de oprimir!
Deslize em suas melodias a opressão contra a mulher,
Só não tente com hipocrisia do que cantas se redimir.

Invisibilidade da dor

 

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Olhei para trás, vi um passado imperfeito,
Nos rastros dos passos por caminhos agros,
Acompanhava-me as reticências com apego,
Chorei revivendo a lembrança do medo.

Imagens povoam minha mente cansada
Recolho-me a um canto qualquer
De dentro para fora assisto a mulher
Seguindo pela vida desesperançada…

Ao lado dela, passam pessoas apressadas,
Na mesma rua, pelas mesmas calçadas,
Ninguém a vê, nem a ouve, ninguém a abraça,
Sua dor incomunicável, sua intima desgraça.

Sente se delirante, vê dedos apontados para sua cara,
Tanta indiferença e a mulher esta acuada,
Acusadores sádicos zombam dos seus tormentos
Gritam para o nada: Culpada! Culpada! Culpada!

A mulher de meu delírio sou eu, errante e perdida,
Lava-me o corpo sangue vindo de outras mãos,
Outrora o agressor não pode findar minha vida,
mata-me agora o mundo destilado de incompreensão.

Depois…

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Ontem foi a ultima vez, não posso mais suportar tanto desamor. Nem mesmo o que estampa meu olhar, comove sua maldade, zombas do meu horror. Encolhida num canto da casa, depois de ter em mim murros e tapas, depois do sangue escorrer, da lágrima ser insuficiente para lavar a dor, depois…

Levantei me convencida, de que o amor que um dia jurastes que sentia, nunca existiu… Relutei, depois de cada agressão quis acreditar que seria a ultima, inventava as mais equivocadas desculpas para poder desculpar… De repente me faltam ideias para pensar que não foi de propósito.

Satisfaz sua doença destruir meus sonhos e crenças, paralisa minha vida esperar que você compreenda: Que quem ama não subjuga o outro, quem ama protege, cuida, não machuca…

As marcas que tenho aqui fora servirão aos olhares do publico, alguns para se compadecerem, outros apenas para julgar e condenar, não importa porque as marcas mais profundas não estão estampadas na minha pele, mas em algum lugar aqui dentro, onde estou morrendo, onde há uma luta, que ao seu lado estou perdendo.

Por isso estou de partida…

Depois de tantas primaveras desabridas…Depois de tantos sonhos perdidos, não posso mais compactuar com esta relação doentia, há de existir vida, há de existir calor e sol nascendo para um novo recomeço, depois..

 

 

Não se nasce feminista, torna – se feminista.

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Não nasci feminista, me tornei feminista;

Não se nasce mulher, torna se mulher como dizia Simone de Beauvoir;

Tive posturas machistas a minha vida toda, sem saber que eram posturas machistas, falta de conceito, falta de compreender que nasci para ser a mulher que o machismo queria que eu fosse;

Apoiei o machismo de outros, defendi posicionamentos equivocados, até que um dia um amigo me disse:

– Você é machista!

Sim, um amigo homem, do meio da esquerda me disse que eu era machista. Aquilo me doeu por alguns dias, e depois eu comecei a querer compreender o que em minhas posturas era machismo, onde eu estava errando e apoiando uma ideologia de ódio contra mim mesmo e contra as mulheres em geral.

Aprofundei meu estudos acerca do feminismo, me envergonhei de muitas posturas erradas que tive, me desculpei inclusive com algumas pessoas e comecei uma reconstrução do ser social que eu sou.

A qualquer momento as pessoas podem fazer autocritica, a qualquer momento as pessoas podem decidir que existe algo em sua personalidade, que é uma construção social, que pode ser alterada, isso é uma construção, leva tempo, leva a vida toda, todos os dias estamos aprendendo, o importante é começar esta transformação.

O feminismo me libertou de um peso, abriu meus olhos para a pessoa que eu tentava construir baseado em conceitos que a sociedade patriarcal me ditava e a pessoa que eu realmente deseja ser; Deixei de me culpar por não ser a mulher com o corpo que a mídia machista impõe, de nãos ser a mulher que minha família machista achava que eu deveria ser; De não seguir a religião e crença patriarcal que todos esperavam que eu seguisse…

Mas me alegro constantemente de não ser uma opressora de mim mesmo e do outro. Ser feminista é isso, ser livre, e ser livre de oprimir os outros.